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Ex-padre que segurou Vanderlei em Atenas pede perdão e quer ir ao Rio







Ex-padre pede perdão a Vanderlei, diz torcer por Marílson e planeja ida ao Rio


Cornelius 'Neil' Horan, que invadiu maratona em Atenas 2004 e impediu ouro brasileiro, estará na prova deste domingo. Mas afirma ter aprendido a lição

Por João Gabriel Rodrigues
Direto de Londres

Cornelius "Neil" Horan não parece capaz de causar perigo algum. Tem 1,68m, um jeito engraçado de andar e mora há 16 anos no mesmo local, em um quarto alugado numa casa de dois andares em Nunhead, ao sul de Londres. Anda pelas ruas da capital inglesa vestido com chapéu, colete e meias verdes, uma camisa branca e o "kilt" (saia masculina) laranja. Mas, aos 65 anos, ele prevê uma guerra, embora não saiba exatamente quando. Diz também que Jesus Cristo está perto de voltar. E é por isso que carrega seus cartazes por aí, tentando avisar ao mundo da mudança iminente. Ignorado por muitos, resolveu arriscar. Invadiu o GP de Silverstone de 2003, na Fórmula 1. Foi preso, mas não desanimou. Pegou um avião para a Grécia em agosto de 2004 e entrou no caminho de Vanderlei Cordeiro de Lima, que liderava a maratona dos Jogos de Atenas a pouco mais de 6 km do fim. Mudou o rumo da prova e, de quebra, entrou para o rol de vilões eternos do esporte olímpico brasileiro.
- Os brasileiros me odeiam, né? É, eu imaginava... - diz, com um leve sorriso no rosto.
Cornelius Neil Horan padre maratona Londres (Foto: João Gabriel Rodrigues / GLOBOESPORTE.COM)Horan com livro de sua vida em mãos: pedido de desculpas (João Gabriel / GLOBOESPORTE.COM)
Não que o ex-padre irlandês, expulso da igreja católica na década de 1990 por conta de profecias apocalípticas, se sinta bem em ter tirado as chances de ouro de Vanderlei. "Como ser humano", ele "lamenta profundamente". Escreveu até uma carta em português, com um pedido de desculpas (veja no vídeo acima), mas lembra que tudo faz parte de um "plano superior". Para tentar se redimir, garantiu que estará presente na Maratona dos Jogos de Londres, neste domingo, com uma bandeira do Brasil em mãos e na torcida por Marílson dos Santos, maior aposta do país na prova.
- Soube que ele tem boas chances, né? Tem que tomar cuidado com os africanos. Mas vou estar lá, torcendo. Vou ficar bem perto e, quando ele passar, vou gritar "vai, Marílson". Mas acho que ele não vai me ouvir...
Vanderlei Cordeiro sendo atrapalhado nas olimpíadas (Foto: AFP)
Horan invade a pista durante passagem de 
Vanderlei na maratona (Foto: AFP)
Na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, foi encontrado com cartazes de ataque a Hitler e planos de uma nova invasão. Passou nove semanas preso antes de ser mandado de volta para a Inglaterra. Por conta do histórico, a presença de Horan na maratona deste ano ficou ameaçada. A Scotland Yard, polícia metropolitana de Londres, exigiu que o ex-padre estivesse acompanhado de dois oficiais sempre que fosse a um local de competição. Tem sido assim nos últimos dias, quando circula pelo Parque Olímpico tentando passar sua mensagem. Mas ele afirma que a preocupação é desnecessária: "Aprendi minha lição". As invasões, ele garante, ficaram para trás.
O número de confusões, porém, é grande. Horan já tentou passar suas mensagens em todo o tipo de eventos, mas sempre teve uma queda pelos esportivos. Diz que a atmosfera favorece seu manifesto sem que seja muito incomodado pela polícia.
- Imagina eu fazer isso em um discurso do Primeiro Ministro. Imagina tentar invadir um evento com a Rainha. Não dá. Os eventos esportivos são mais tranquilos, a segurança não é tão grande.
Horan não tem uma condição financeira das mais confortáveis. Sobrevive com o dinheiro que ganha em suas apresentações nas praças londrinas, fazendo seu manifesto e apresentando a dança irlandesa ao público. Por conta dela, foi convidado para participar do "Britain´s Got Talent", programa de calouros inglês, mas sem muito sucesso. Dividia a apertada casa de dois andares em Nunhead, a 45 minutos do centro de Londres, com Della McManus, também irlandesa e dona do imóvel. Ela, no entanto, morreu aos 92 anos há um pouco mais de um mês, deixando a casa livre para Horan. Os vizinhos, porém, não gostaram muito.
Cornelius Neil Horan padre maratona Londres (Foto: João Gabriel Rodrigues / GLOBOESPORTE.COM)Cornelius tenta mostrar ao mundo que Jesus Cristo está para voltar (João Gabriel / GLOBOESPORTE.COM)
- Ele é um homem estranho, tem alguns hábitos esquisitos. Mas eu também tenho sentimentos confusos em relação a ele por conta da situação em que ele está agora. A antiga senhoria dele morreu há um pouco mais de um mês e ele parece achar que a casa é dele. Mas a senhora tem uma filha. Talvez por ela morar longe, ele ache que é o dono agora. Todo dia tem recebido gente. Ele continua morando aqui, mas, afinal de contas, a casa não é dele, não, é? - disse uma vizinha, que preferiu não se identificar.
Mas Horan parece também não se sentir bem no local e já ensaia uma mudança de cidade.
- Acho que não fico mais muito tempo aqui...
Horan nasceu no condado de Kerry, na Irlanda. Foi ordenado padre aos 26 anos, mas nunca foi bem visto entre os católicos. Publicou um livro com suas profecias e acabou expulso da Igreja. Passou a dar suas mensagens em eventos, mas ganhou notoriedade ao invadir a pista do GP de Silverstone em 2003. Mas, quando fechou a porta de sua casa, pegou três trens até o aeroporto e embarcou para a Grécia naquele sábado, 28 de agosto de 2004, não imaginava que seria capa de todos os jornais dois dias depois.
 - Eu penso no Vanderlei todos os dias. Há uma tristeza muito grande no meu coração por ter atrapalhado a corrida dele. Eu continuo vendo aquelas imagens e fica uma dor muito grande. Eu nunca pensei em segurá-lo ou empurrá-lo, Deus é testemunha disso. Mas as coisas saíram do controle. Quando fechei a porta de casa, não imaginei que seria o centro das atenções do mundo todo um dia depois. Eu nunca vou esquecer o rosto do Vanderlei naquele dia, o pânico que ele sentiu. Mas ele precisa entender que Deus quis assim. Ele não vai levar medalha quando o Novo Reino for construído.

O ex-padre chegou a Atenas na madrugada de domingo, dia do encerramento dos Jogos. Depois de dormir algumas horas no aeroporto, foi até o Estádio Olímpico, mas viu as portas fechadas. Ficou sabendo da maratona e se posicionou em um dos pontos de passagem. Sua ideia era invadir a pista, parar em frente a uma das câmeras de transmissão e passar sua mensagem. Mas, quando Vanderlei Cordeiro estava próximo de passar, só deu tempo de correr.
A história do padre virou livro em 2010, pelas mãos do jornalista irlandês Aidan O'Connor. Com o título de "Dancing Priest" ("Padre Dançarino", em tradução livre), a publicação conta com um capítulo inteiro sobre o episódio com Vanderlei. Mas, para formalizar seu pedido de desculpas, Horan prevê uma ida ao Brasil em 2016, na época dos Jogos do Rio de Janeiro.
- Quero dançar para vocês no Brasil. Quero dançar com as crianças de rua, levar alegria para todas elas. Eu sei que o Brasil é um país muito sofrido, assim como a Irlanda, mas com motivos diferentes. Quem sabe o Vanderlei não dança comigo em 2016?

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